
Caiu uma marca que perdurava há quase uma década! Depois de várias tentativas fracassadas pelo caminho, o recorde de volta ao mundo mais rápida em um veleiro foi quebrado neste domingo (25), após a tripulação liderada pelo francês Thomas Coville atingir o feito em 40 dias, 10 horas, 45 minutos e 50 segundos — quase 13 horas a menos que o título anterior.
O antigo recorde pertencia também a um francês, o velejador Francis Joyon. Ele havia completado a circunavegação do globo em 40 dias, 23 horas, 30 minutos e 30 segundos, em janeiro de 2017, a bordo do trimarã Idec-Sport. Agora, o Troféu Júlio Verne — recompensa para o veleiro que dá a volta mais rápida de todos os tempos, sem escalas e sem assistência externa — muda de mãos (embora não de país).
A nova marca ocorreu a bordo do Sodebo Ultim 3, um trimarã de 33 metros (108 pés) de comprimento. Além do capitão, a tripulação era composta apenas por franceses: Benjamin Schwartz, Frédéric Denis, Pierre Leboucher, Léonard Legrand, Guillaume Pirouelle e Nicolas Troussel.
Ao todo, foram necessários nove anos e treze tentativas — incluindo três da Sodebo — para que este icônico recorde fosse quebrado. Em 2020, o próprio Coville, a bordo do mesmo barco, sofreu com uma falha no leme a sudeste das Ilhas Kerguelen (Índico Sul) e foi obrigado a desistir.
Primeira vez detentor do Troféu Júlio Verne como capitão, Coville já havia participado de outros veleiros vencedores: o Sport-Élec, em 1997, liderado por Olivier de Kersauson; e o Groupama 3, em 2010, capitaneado por Frank Cammas.
O Sodebo Ultim 3 navegou a uma incrível velocidade média de 29,17 nós (cerca de 54 km/h). Isso é mais que o dobro de velocidade média feita por Bruno Peyron no recorde de 1993 (26,65 km/h).
Segundo os especialistas, a marca obtida neste domingo é de grande feito, visto que, devido às condições meteorológicas e do mar, o trimarã foi obrigado a fazer muito mais manobras do que o Idec-Sport em 2017. Ele, inclusive, chegou a se aproximar perigosamente de um iceberg no Oceano Ártico.
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Além disso, os velejadores tiveram que alongar sua rota no Atlântico Sul e resistir à tempestade Ingrid — o que lhes custou um leme — enquanto se aproximavam da linha de chegada. “Foi um desvio enorme até o Brasil antes de finalmente podermos virar à esquerda”, explicou Thomas Coville.
Entretanto, as dificuldades não impediram os navegantes de estabelecerem recordes em Ushant-Equador, no Oceano Pacífico e em tempos de referência em cada cabo (Good Hope, Leeuwin e Horn).
Com a conquista, o trimarã simboliza também a evolução da vela. Este é o primeiro veleiro “foiling” (com “asas” em L que fazem a embarcação planar sobre as águas) a levar o prêmio Júlio Verne. Lançado em 2019, o Sodebo Ultim 3 foi desenhado justamente para ser um “barco a vela voador”.
Diferentes dos veleiros anteriores da equipe (tiveram três antes do Ultim 3), a estrutura desse é feita de fibra de carbono, justamente para ser o mais leve possível para decolar. Antes, o time optava por veleiros gigantes que passassem por cima das ondas.
A cabine do piloto, nesse modelo, fica à frente do mastro, uma inovação para melhorar a aerodinâmica e ajudar no equilíbrio enquanto o barco “voa”.
No entanto, Coville e tripulação terão que cruzar os dedos para que o recorde perdure por mais tempo. Isso porque o experiente velejador Charles Caudrelier já colocou na água o trimarã Gitana 18, que não só tem tecnologia foil, como um casco que sequer toca os mares.
A ideia da equipe do Gitana é extremamente ambiciosa: pulverizar o recorde do Sodebo durante o inverno boreal (novembro/dezembro). A meta é aumentar a façanha para a casa dos 38 ou 39 dias — algo que até pouco tempo atrás parecia inimaginável.
O nome do prêmio tem origem no romance “A volta ao mundo em 80 dias”, escrito por Júlio Verne e lançado em 1873. A história conta as aventuras do inglês Phileas Fogg, que apostou com os amigos que seria capaz de dar a volta ao globo naquele espaço de tempo.
Em 1993, o skipper francês Bruno Peyron, a bordo do Commodore Explorer, foi o primeiro velejador a receber essa honraria, ao completar a circunavegação em 79 dias, 6 horas, 15 minutos e 56 segundos.
Por mais complexa que a missão seja, as regras são simples: a volta ao mundo terá de ser feita num barco que se mova exclusivamente à vela; ter como linha de partida e de chegada a região entre os faróis da Ilha de Ouessant (ao norte da França) e do Cap Lizard (ao sul de Inglaterra); e, obrigatoriamente, passar a sul dos cabos da Boa Esperança (na África do Sul), de Leeuwin (na Austrália) e de Horn (no Chile), nessa ordem.
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