A fala de Lula, a indignação seletiva e a régua que precisa valer para todos
A fala de Lula, a indignação seletiva e a régua que precisa valer para todos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a provocar uma enorme reação nas redes sociais após uma declaração durante um evento em Belém, no Pará, ao defender a realização do exame de próstata.
Ao tentar convencer os homens a vencerem o constrangimento e realizarem o exame preventivo, Lula afirmou que “as mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas” e chamou os homens de “covardes” por não aceitarem o procedimento.
A declaração rapidamente ganhou as redes sociais e provocou uma avalanche de críticas.
É importante deixar uma coisa absolutamente clara: o contexto completo mostra que Lula estava falando de exames médicos e defendendo a prevenção do câncer de próstata. Não é correto transformar a declaração em uma acusação de defesa ou normalização de abuso infantil.
Mas isso não significa que a frase esteja acima da crítica.
Muito pelo contrário.
A escolha das palavras foi extremamente infeliz e, partindo do presidente da República, merece ser questionada.
A pergunta que fica é outra:
Se fosse um adversário político de Lula fazendo exatamente a mesma declaração, qual seria o tamanho da repercussão?
Quantos editoriais seriam publicados?
Quantos comentaristas estariam discutindo o assunto?
Quantos políticos exigiriam explicações?
Quantas manchetes ocupariam os principais portais?
E, principalmente, qual seria a reação das instituições?
Essa pergunta não significa afirmar que Lula deveria perder o direito de disputar uma eleição por causa dessa declaração. Não existe base jurídica para afirmar isso.
Mas existe, sim, base para discutir algo muito maior: a igualdade de tratamento das instituições e da imprensa diante de declarações controversas de autoridades públicas.
Dois pesos e duas medidas?
O Brasil vive um momento em que a confiança nas instituições é permanentemente colocada à prova.
O Supremo Tribunal Federal tem entre seus integrantes ministros indicados por diferentes presidentes da República, inclusive quatro indicações feitas durante os governos de Lula: Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Cristiano Zanin e Flávio Dino.
Isso não significa, por si só, que qualquer ministro seja parcial ou que decisões sejam tomadas para favorecer quem o indicou.
Mas significa que é legítimo que a sociedade cobre independência, transparência e aplicação uniforme das regras.
Porque democracia não pode trabalhar com uma régua para aliados e outra para adversários.
Se uma declaração é inadequada, deve ser criticada independentemente de quem a tenha pronunciado.
Se determinada conduta configura crime ou gera consequência eleitoral, isso precisa decorrer da lei e do devido processo — não da preferência política de quem analisa o caso.
E se não configura crime ou causa de inelegibilidade, também não pode ser artificialmente transformada em uma dessas coisas.
Essa deveria ser a regra para todos.
E enquanto discutimos uma frase, os números continuam assustadores
O debate também precisa ser colocado dentro de uma realidade muito mais grave.
O Brasil registrou 848 feminicídios entre janeiro e julho de 2026, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
No primeiro semestre deste ano, foram registrados 10.248 casos de estupro, sendo 9.380 vítimas mulheres.
São números que mostram que a violência contra mulheres continua sendo uma questão de enorme gravidade no país.
Também entre janeiro e julho de 2026, o Ligue 180 recebeu 98.705 denúncias de violência contra mulheres, envolvendo mais de 554 mil violações de direitos.
Ou seja: enquanto o país discute a forma inadequada escolhida pelo presidente para falar sobre exames médicos, milhares de mulheres continuam enfrentando violência dentro e fora de casa.
É justamente por isso que autoridades públicas precisam medir suas palavras.
Não se trata de impedir Lula de falar.
Não se trata de censurar o presidente.
Não se trata de transformar uma declaração infeliz em algo que ela não foi.
Trata-se de exigir responsabilidade de quem ocupa o cargo mais alto do Poder Executivo.
A régua precisa ser a mesma
O problema maior não é Lula ter defendido o exame de próstata.
Isso é absolutamente legítimo e necessário.
O problema está na maneira como a comparação foi construída.
E o problema democrático seria ainda maior se a sociedade aceitasse que determinadas figuras políticas podem falar determinadas coisas enquanto outras seriam submetidas imediatamente a uma tempestade institucional.
A régua precisa ser a mesma.
Para Lula.
Para Bolsonaro.
Para qualquer candidato.
Para qualquer ministro.
Para qualquer deputado.
Para qualquer cidadão.
Se uma frase é inadequada, que seja criticada.
Se existe crime, que seja investigado.
Se existe uma consequência eleitoral prevista em lei, que seja aplicada.
E se não existe, que ninguém tente fabricar uma consequência simplesmente porque não gosta do autor da declaração.
É assim que uma democracia madura deveria funcionar.
Não queremos um STF que proteja Lula.
Também não queremos um STF que persiga Lula.
Queremos um STF que aplique a Constituição e as leis exatamente da mesma maneira, independentemente de quem esteja sendo julgado.
Porque, no fim das contas, a questão não deveria ser quem indicou determinado ministro.
A questão deveria ser se as instituições conseguem provar, na prática, que ninguém está acima da lei — e ninguém está abaixo dela.
Nós, da reportagem, fomos garimpar o episódio nos principais portais de notícias, confrontamos o contexto da declaração e os números oficiais disponíveis sobre violência contra mulheres.
E uma coisa fica evidente:
criticar Lula não significa acusá-lo de algo que ele não disse.
Mas também não significa que o presidente da República esteja imune à crítica quando escolhe palavras que provocam indignação.
Presidente também responde politicamente por aquilo que fala.
E a sociedade tem o direito de cobrar.
Por Ricardo Severino
Redação Jornal Voz do Litoral
Imagens: Ricardo Severino via WhatsApp


