EDITORIAL | QUANDO ATÉ AS GRANDES EMPRESAS NÃO CONSEGUEM

EDITORIAL | QUANDO ATÉ AS GRANDES EMPRESAS NÃO CONSEGUEM PAGAR A CONTA, QUEM ESTÁ ERRANDO?

Juros elevados, impostos, custos trabalhistas, endividamento e decisões empresariais: o Brasil precisa discutir por que produzir, investir e gerar empregos se tornou um desafio tão grande.

O sinal de alerta está aceso. Empresas conhecidas, marcas que fizeram parte da história econômica brasileira e até uma montadora chinesa voltaram a enfrentar dificuldades financeiras severas. Quando companhias desse porte recorrem à Justiça para tentar reorganizar suas dívidas, é hora de perguntar: o que está acontecendo com o ambiente de negócios no Brasil?

O caso mais recente é o do Grupo SHC, responsável pela operação da JAC Motors no país. Em outubro de 2026, o grupo voltou a pedir recuperação judicial, pela segunda vez. O novo processo envolve aproximadamente R$ 239,5 milhões em dívidas abrangidas pelo pedido, enquanto o passivo total informado chega a cerca de R$ 370 milhões. A primeira recuperação judicial havia sido encerrada em maio de 2025.

A operação enfrenta queda expressiva nas vendas, fechamento de concessionárias e concorrência crescente no mercado automotivo. É um exemplo de como uma marca que já apostou na expansão nacional pode perder espaço quando o mercado muda e a estrutura financeira deixa de acompanhar a realidade. O pedido de recuperação judicial, entretanto, não significa que a empresa já tenha falido. É uma tentativa de reorganização para evitar um desfecho ainda pior.

E a JAC não está sozinha.

GRANDES NOMES, DÍVIDAS GIGANTESCAS E SINAIS DE ALERTA

A Americanas protagonizou uma das maiores crises empresariais brasileiras recentes, após a revelação de inconsistências contábeis bilionárias em 2023. O caso mostrou que não basta ter lojas espalhadas pelo país, uma marca conhecida e números grandiosos: transparência, governança e controle financeiro são indispensáveis.

A 123milhas entrou em recuperação judicial em meio a uma crise que envolveu passagens promocionais, pacotes suspensos e compromissos com clientes e fornecedores. Seu caso expôs os riscos de um modelo de negócio vulnerável às condições do mercado de viagens, aos custos e à capacidade de honrar as vendas realizadas.

A SouthRock, operadora de marcas como Starbucks no Brasil, também recorreu à recuperação judicial, pressionada por dificuldades operacionais e financeiras. A pandemia, a inflação e os juros elevados agravaram o cenário, segundo as explicações divulgadas pela própria empresa.

E há um caso ainda mais grave: a Oi. Em agosto de 2026, a Justiça do Rio de Janeiro decretou novamente a falência da companhia, após uma longa trajetória de reestruturações e crises. A dívida informada chegava a aproximadamente R$ 44 bilhões, envolvendo cerca de 164 mil credores.

São histórias diferentes, mas que trazem uma lição comum: receita elevada não significa lucro, marca famosa não significa solidez e crescimento acelerado não significa sustentabilidade.

Em alguns casos, pesaram problemas de gestão, modelos de negócio frágeis ou falhas de governança. Em outros, endividamento elevado, mudanças de mercado, custos crescentes e dificuldade de renegociar compromissos. Não seria correto atribuir todas essas crises a uma única causa.

Mas existe um fator que merece atenção especial: o custo do dinheiro no Brasil.

JUROS ALTOS: O DINHEIRO QUE FALTA PARA PRODUZIR

Quando os juros permanecem elevados, o crédito fica mais caro. Empresas que precisam financiar estoques, comprar equipamentos, ampliar instalações ou manter capital de giro passam a comprometer uma parcela maior de sua receita com despesas financeiras.

O problema se agrava quando uma empresa já possui dívidas acumuladas. Parte do dinheiro que deveria financiar investimentos, modernização e empregos passa a ser destinada ao pagamento de juros.

Em julho de 2026, reportagem da Folha de S.Paulo, com informações da Reuters, destacou a pressão dos juros elevados sobre as empresas brasileiras e o avanço das renegociações de dívidas. O movimento atingiu diferentes setores da economia.

É preciso, portanto, discutir uma questão fundamental: como esperar que o empresário invista, contrate e amplie a produção se o custo do financiamento consome uma parcela tão significativa dos recursos disponíveis?

Isso não significa que juros altos expliquem toda falência. Significa que, em uma empresa já fragilizada, o crédito caro pode ser o fator que transforma uma dificuldade administrável em uma crise de grandes proporções.

IMPOSTOS, BUROCRACIA E O CUSTO DE CONTRATAR

Outro ponto central é o custo de manter uma empresa funcionando no Brasil.

O empresário precisa lidar com tributos, obrigações acessórias, exigências regulatórias, folha de pagamento, encargos trabalhistas, energia, aluguel, logística e fornecedores. Mesmo quando as vendas caem, boa parte dessas despesas continua chegando.

No caso da contratação, o custo total para a empresa vai além do salário líquido recebido pelo trabalhador. Existem contribuições, direitos trabalhistas e outros encargos que precisam entrar na conta. A legislação também exige cumprimento de procedimentos e obrigações que demandam estrutura administrativa.

Isso não significa defender a retirada dos direitos dos trabalhadores. Significa reconhecer que precisamos encontrar maneiras de tornar a contratação formal menos onerosa e menos burocrática, sem precarizar o emprego.

Afinal, o trabalhador precisa de salário digno, mas também precisa que a empresa tenha condições de continuar aberta.

Quando contratar se torna inviável, quem perde é o trabalhador que não encontra uma oportunidade formal. Quando o negócio fecha, desaparecem empregos, fornecedores perdem clientes, municípios arrecadam menos e famílias enfrentam dificuldades.

Proteger o trabalhador e preservar a capacidade de produzir não são objetivos incompatíveis. O desafio é construir regras que permitam os dois.

ASSISTENCIALISMO, GASTOS PÚBLICOS E A CONTA QUE NÃO DESAPARECE

O governo também precisa ser cobrado pela maneira como administra o dinheiro público.

Programas de transferência de renda têm uma função social importante, especialmente no combate à fome e à pobreza. O problema começa quando a discussão sobre proteção social deixa de lado a responsabilidade fiscal, a eficiência dos gastos e a necessidade de ampliar a produção e o emprego.

Nenhum governo pode gastar indefinidamente sem considerar de onde virão os recursos. O financiamento das despesas públicas depende de receitas, endividamento e condições econômicas. Quando o endividamento cresce e a confiança na trajetória fiscal diminui, o país pode enfrentar pressões adicionais sobre os juros, o crédito e os investimentos.

É por isso que precisamos discutir prioridades, desperdícios, qualidade dos gastos e sustentabilidade das contas públicas.

Não se trata de afirmar que os programas sociais, isoladamente, causam o endividamento ou a falência das empresas. Essa relação não pode ser estabelecida sem examinar os números. Trata-se de cobrar que a assistência social venha acompanhada de responsabilidade fiscal, qualificação profissional, oportunidades de trabalho e políticas capazes de estimular a atividade econômica.

O cidadão não pode ser condenado a depender eternamente de benefícios porque a economia não consegue gerar oportunidades suficientes.

Assistência social é necessária; dependência econômica permanente não pode ser o projeto de desenvolvimento de um país.

A conta dos desequilíbrios fiscais pode chegar à população por diferentes caminhos: impostos, serviços públicos insuficientes, crédito caro, menor investimento e menos oportunidades de emprego. É justamente por isso que o dinheiro público precisa ser tratado com seriedade.

AFINAL, O EMPRESÁRIO VIROU O VILÃO?

No debate político brasileiro, muitas vezes o empresário aparece como alguém que só quer lucrar, enquanto o Estado é apresentado como o único responsável por proteger a sociedade.

Essa visão é simplista.

Há empresários que cometem erros graves, administram mal, assumem riscos irresponsáveis ou praticam irregularidades. Esses casos precisam ser investigados e responsabilizados. A crise da Americanas, por exemplo, mostra a importância da transparência e da governança corporativa.

Mas existe também o empresário que abre as portas todos os dias, assume dívidas, investe o próprio patrimônio, paga salários, recolhe impostos e tenta manter seu negócio funcionando mesmo quando as vendas diminuem e os custos aumentam.

O pequeno comerciante, o industrial, o prestador de serviços e o empreendedor local não têm a mesma capacidade financeira das grandes corporações. Para muitos deles, alguns meses de queda no faturamento podem significar o encerramento definitivo das atividades.

O Estado não deve tratar quem produz como inimigo. Deve fiscalizar, cobrar impostos legalmente devidos, combater fraudes e assegurar direitos, mas também oferecer regras previsíveis, segurança jurídica e condições para que os negócios prosperem.

Sem empresas saudáveis, não existe geração sustentável de empregos. Sem empregos, a arrecadação perde força e a demanda por assistência social tende a aumentar.

O BRASIL PRECISA ESCOLHER ENTRE PUNIR A PRODUÇÃO E ESTIMULÁ-LA?

O debate não deveria ser uma disputa entre empresários e trabalhadores. Ambos dependem de uma economia capaz de produzir riqueza, pagar salários, financiar serviços públicos e criar oportunidades.

O governo precisa ser cobrado pelos gastos, pela política fiscal, pela eficiência administrativa e pelas condições oferecidas a quem investe. O Congresso precisa discutir uma estrutura tributária que não penalize desnecessariamente a atividade produtiva. E as empresas precisam fazer sua parte, com gestão responsável, transparência e planejamento financeiro.

Não há fórmula mágica. Reduzir juros de maneira sustentável depende das condições monetárias e fiscais; diminuir impostos exige avaliar as receitas e despesas públicas; simplificar a contratação não pode significar eliminar direitos; e estimular o empreendedorismo exige mais do que discursos.

Mas uma coisa é evidente: não podemos normalizar um cenário em que produzir se torna cada vez mais arriscado, o crédito custa caro e a renegociação de dívidas passa a ocupar o lugar dos investimentos.

Quando uma grande empresa entra em crise, o problema não fica restrito aos seus proprietários. Ele alcança trabalhadores, fornecedores, clientes, credores e comunidades inteiras.

Por isso, a pergunta que fica não é apenas por que tantas empresas estão endividadas. É também o que o Brasil está fazendo — e o que precisa mudar — para que empresas viáveis consigam produzir, contratar e crescer.

Porque, no final das contas, quando a empresa fecha, não é apenas o empresário que paga a conta. O trabalhador perde o emprego, o fornecedor perde o cliente, o município perde arrecadação e a sociedade perde oportunidades.

E um país que deseja combater a pobreza precisa entender que a proteção social é importante, mas a produção de riqueza, o emprego e a responsabilidade fiscal também são indispensáveis.

Editorial — análise crítica sobre o ambiente econômico brasileiro. As opiniões expressas refletem uma posição editorial; os casos empresariais citados possuem causas específicas e não podem ser atribuídos exclusivamente à política econômica do governo.

Escrito por: Ricardo Severino

📑 Fontes para a publicação

• Exame — Grupo SHC e a nova recuperação judicial da operação brasileira da JAC Motors

• Folha de S.Paulo / Reuters — Juros elevados e renegociação de dívidas empresariais

• Exame — Americanas, Oi, 123milhas e SouthRock: histórico das crises empresariais

• Agência Brasil — Justiça decreta novamente a falência da Oi em agosto de 2026

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Fontes para a publicação

• Exame — Grupo SHC e a nova recuperação judicial da operação brasileira da JAC Motors

• Folha de S.Paulo/Reuters — juros elevados e renegociação de dívidas empresariais

• Exame — Americanas, Oi, 123milhas e SouthRock: histórico das crises empresariais

• Agência Brasil — Justiça decreta novamente a falência da Oi em agosto de 2026

Redação Jornal Voz do Litoral
Imagens: Divulgação

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