
À primeira vista, uma das obras mais recentes do artista austríaco Erwin Wurm pode até passar despercebida. Mas bastam alguns segundos de observação para perceber que Star (2025) está longe de ser um veleiro convencional. A embarcação em tamanho real exibe um casco exageradamente curvado, completamente diferente de qualquer lógica aplicada à navegação prática.
Conhecido por explorar o absurdo como linguagem artística, Wurm construiu uma carreira baseada na distorção de formas familiares. Veículos, casas, objetos do dia a dia e até o corpo humano servem como matéria-prima para esculturas que provocam estranhamento e reflexão.
No caso de Star, o artista leva essa lógica para o universo náutico. Apesar do desenho atípico, o veleiro é funcional e capaz de navegar — mas apenas em círculos. A proposta, segundo a leitura crítica da obra, é personificar futilidades e contradições da vida contemporânea, questionando ideias que costumam ser aceitas como óbvias.
Max Hollein, diretor do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, elogiou a peça por transmitir de forma “extremamente sugestiva” a tragédia de sua própria condição social — uma característica recorrente no trabalho de Wurm.
A escultura Star permanece em exibição até 11 de abril de 2026, na galeria Thaddaeus Ropac Paris Pantin, na França, como parte da exposição Tomorrow: Yes, inaugurada no último dia 17.
Quase duas décadas antes de Star, Erwin Wurm já havia experimentado o formato de uma embarcação como escultura. Em 2007, apresentou Misconceivable (“Inconcebível”) no Museu Middelheim, na Bélgica. Diferentemente do veleiro mais recente, a obra tinha o casco curvado para baixo, tornando impossível qualquer tentativa de navegação.
Ainda assim, o barco em escala real sintetiza o humor ácido do artista e provoca sensações de desconforto e impotência. O formato inviável ainda reforça a crítica à lógica funcional que normalmente rege objetos técnicos, como as próprias embarcações.
A produção de Wurm, no entanto, não se limita ao universo náutico. Ao longo da carreira, o artista criou esculturas de carros, caminhões, casas e roupas em formatos antinaturais.
Entre as mais conhecidas estão Fat House (“Casa Gorda”), Fat Car (“Carro Gordo”) e Fat Convertible (“Conversível Gordo”), obras que aproximam sistemas técnicos aos biológicos. Ao imaginar casas e automóveis capazes de engordar, Wurm propõe uma reflexão irônica sobre consumo, excesso e envelhecimento — algo impossível para objetos industriais, mas inevitável aos corpos humanos.
No extremo oposto está Narrow House (“Casa Estreita”), uma construção comprimida e estranhamente fina que remete à residência onde o artista passou a infância. O formato claustrofóbico serve como metáfora para condicionamentos familiares e memórias sensíveis desse período na vida do artista.
Também no campo dos veículos, Truck II chama atenção pelo caminhão com a base curvada quase em 90 graus. Embora reconhecível, o objeto convida à reflexão por apresentar um formato impraticável.
Já em obras que dialogam diretamente com o corpo humano, Wurm tem criado esculturas que adicionam pernas a elementos inanimados, como bolsas e maletas, e o padrão tem virado uma das assinaturas do artista. Em Trap of the Truth, duas maletas pernadas parecem travar uma discussão, reforçando o caráter performático e irônico do artista.
Parte das obras pode ser acompanhada pelo Instagram de Erwin Wurm, onde o artista compartilha trabalhos novos e antigos, que sempre orbitam o absurdo — até quando assumem formato de barcos.
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