
Para aproveitar a folia com responsabilidade, é necessário também cuidar do meio ambiente — ou os danos persistirão por muito tempo. De acordo com um estudo, publicado em dezembro de 2025 pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), uma quantidade relevante de microplásticos de glitter do Carnaval foi encontrada na areia da Praia do Flamengo (RJ), mesmo oito meses após a festa.
O local escolhido para a análise não foi em vão: a praia é um dos cartões-postais da Baía de Guanabara e recebe diversos blocos, alguns com mais de 100 mil pessoas. A região também possui relevância ecológica e logística, sendo de fácil acesso para os visitantes — sejam eles brasileiros ou estrangeiros.
O que se concluiu com o estudo já era evidente: a grandiosidade da festa do Carnaval aumenta a produção de lixo e contamina o local por microplásticos antes, durante e depois do evento.
De acordo com a pesquisa, as amostras revelaram que a composição do lixo microscópico na areia traz 66,3% de fragmentos (categoria dominante onde se encaixa o glitter plástico); 26,2% de fibras (as mais perigosas para a saúde dos seres vivos); e 7,5% de grânulos (microplásticos primários usados como matéria-prima industrial).
A Praia do Flamengo passou por análises de poluição antes, durante e depois da passagem dos foliões, divididas em quatro fases de coleta:
Segundo a pesquisa, a menor taxa foi registrada na primeira coleta. O ápice de concentração ocorreu na terceira fase, logo após o Carnaval. Porém, o mais alarmante é que, oito meses após a folia, a presença de microplásticos era maior do que no período anterior à festa.
Nesse contexto, as praias arenosas servem como uma espécie de “sumidouros naturais” de lixo marinho, acumulando o microplástico na praia. Para piorar, o uso recreativo intenso e a gestão inadequada do resíduo ampliam os riscos de contaminação.
Os microplásticos não são um problema apenas na Praia do Flamengo — tampouco no RJ. O resíduo é uma ameaça global, que marca presença desde a superfície até as profundezas do mar, conforme revelou a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA).
Essas partículas (formadas por um conjunto de plásticos misturados com diversos aditivos químicos) podem persistir no ambiente por muito tempo — como a pesquisa mostrou — e têm capacidade de absorver outros poluentes, como metais pesados.
Evidências biológicas apontam que essas partículas são ingeridas em diversos níveis da cadeia alimentar, dos plânctons aos peixes, podendo causar problemas no trato digestivo, redução de crescimento, estresse e inflamação nesses seres.
Ao interferir no processo de fotossíntese do fitoplâncton e prejudicar o metabolismo do zooplâncton, as partículas plásticas intoxicam esses organismos, que são primordiais para a absorção de CO₂ no oceano. Logo, o microplástico interfere também no sequestro de carbono, o que acelera os efeitos do aquecimento global.
Um dos caminhos para livrar a praia do microplástico é a proibição: na União Europeia, existe um acordo para proibir a venda de glitter plástico solto e outros produtos com esse resíduo de forma intencional. Na Califórnia (EUA), também há uma discussão sobre impedir microesferas em produtos de higiene pessoal.
Falando do Brasil, o Projeto de Lei (PL) nº 347 de 2020 propõe a proibição da fabricação e da venda de glitter a partir de microplástico. Entretanto, o texto segue parado na Câmara dos Deputados, sem sinais relevantes de movimentação.
Tatiana Medeiros Barbosa Cabrini, coautora do estudo e professora da UNIRIO, frisa que o avanço dessa pauta depende da “maturidade do debate entre gestores e população, pressão social e institucional”, além de alternativas biodegradáveis acessíveis. A mudança de hábito dos cidadãos também é fundamental.
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