Os novos líderes da Igreja Católica no Brasil que papa Leão 14 vai escolher


Dom Orlando Brandes assume cargo de novo arcebispo de Aparecida em 2017
É uma coincidência. Mas muito relevante. Nos próximos meses, o papa Leão 14 irá nomear praticamente ao mesmo tempo os novos líderes de quatro das mais importantes arquidioceses brasileiras: São Paulo e Rio de Janeiro, as circunscrições mais populosas do país; Aparecida, um dos maiores centros de peregrinação católica do planeta; e Manaus, o coração da Amazônia, região que foi alçada ao protagonismo nas discussões católicas sob o pontificado anterior, do papa Francisco (1937-2025).
Com essas mudanças de comando, Leão tem a oportunidade de imprimir sua visão na alta hierarquia do maior país católico do mundo.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Vale do Paraíba e região no WhatsApp
Para especialistas, esta será a hora crucial em que o papa americano pode começar a jogar com as cartas que tem na mão nos debates mais relevantes acerca dos desafios contemporâneos.
Os atuais líderes dessas dioceses estão na idade limite para a aposentadoria compulsória determinada pelas regras da Igreja Católica.
A norma, prevista no Código de Direito Canônico, é que um bispo, quando está prestes a completar 75 anos, apresente um pedido de renúncia ao papa.
O Vaticano, então, combina um prazo para que o bastão seja passado ao sucessor. E nomeia um novo religioso para o cargo.
Por padrão — embora não seja uma regra formal — um bispo aposentado, então, passa a ser reconhecido como emérito de sua última diocese. Deixa de ter papel executivo, mas segue sendo respeitado simbolicamente.
Arcebispo de São Paulo desde 2007, o gaúcho Odilo Pedro Scherer chegou a esse limite de idade em setembro de 2024. Na ocasião, o então papa Francisco solicitou que ele ficasse no comando da maior arquidiocese do país até o final de 2026.
Dom Odilo Scherer chegou ao limite de idade na arquidiocese de São Paulo.
Getty Images
Já o paulista Orani João Tempesta, que comanda a arquidiocese do Rio desde 2009, completou 75 anos em junho do ano passado.
Na resposta ao seu pedido de renúncia, o papa determinou, a exemplo do que ocorreu com seu homólogo de São Paulo, que ele exercesse a função por mais dois anos.
Há dez anos à frente da arquidiocese de Aparecida, o catarinense Orlando Brandes é um caso sui generis: vai trabalhar na função até os 80 anos, conforme determinou Francisco quando ele apresentou sua renúncia.
Brandes nasceu em abril de 1946 e comanda a circunscrição do maior santuário católico do país há quase uma década.
Por fim, o também catarinense Leonardo Ulrich Steiner, que lidera a arquidiocese de Manaus desde 2019, completou 75 anos em novembro do ano passado.
Papa Leão 14 terá a oportunidade de imprimir sua visão na alta hierarquia do maior país católico do mundo
EPA
‘Grande oportunidade’
“O Brasil é um país estratégico para o catolicismo romano”, analisa a antropóloga e cientista da religião Lidice Meyer, professora na Universidade Lusófona de Portugal.
Ela argumenta que se o pastoreio dos fiéis é “responsabilidade dos padres locais”, são os bispos que os supervisionam e administram a atuação deles. “Assim, a escolha desses arcebispos é extremamente importante”, comenta.
“Não tenho dúvidas de que Leão 14 está diante de uma grande oportunidade. A verdade é que ele já está pensando de maneira muito estratégica. Esses nomes não serão escolhidos de forma aleatória”, diz o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Dom Orani Tempesta comanda a arquidiocese do Rio desde 2009
Getty Images
A importância desses quatro cargos pode ser medida inclusive pelo reconhecimento formal que com o qual o Vaticano costuma brindar seus comandantes.
Embora não seja uma regra escrita, é quase automático que o bispo que assuma alguma dessas dioceses seja, pouco tempo depois, feito cardeal, passando a integrar o grupo mais próximo do papa.
No caso da morte ou renúncia do sumo pontífice, por exemplo, são os cardeais que se reúnem para eleger o sucessor — e deste grupo é que sai o novo papa.
Scherer, o arcebispo de São Paulo, chegou a ser apontado como papável no conclave que elegeu Francisco, em 2013. Vaticanistas confirmam que ele chegou a ser bem votado nas rodadas que antecederam a eleição do argentino.
Já no processo do ano passado, o brasileiro não era mais um nome visto como forte para comandar a Igreja.
Dom Orlando Brandes, da arquidiocese de Aparecida, vai trabalhar na função até os 80 anos
Getty Images
O chefe da arquidiocese de São Paulo chegou ao cargo em 2007, nomeado pelo então papa Bento 16 (1927-2022). Oito meses depois, no mesmo ano, tornou-se cardeal.
Tempesta foi nomeado arcebispo do Rio no início de 2009, também por Bento. Foi Francisco que, cinco anos mais tarde, fez dele cardeal.
A aproximação de ambos ocorreu durante a primeira viagem apostólica do papa argentino, quando ele veio ao Brasil em julho de 2013 e participou da Jornada Mundial da Juventude, evento que o Rio sediou na ocasião.
Foi Francisco quem colocou Steiner para comandar Manaus no final de 2019, logo após o Sínodo dos Bispos para a Amazônia, encontro ocorrido no Vaticano que trouxe os holofotes do cristianismo para as questões missionárias e ambientais da mais importante floresta do planeta.
Três anos mais tarde, o papa argentino faria dele cardeal. Foi simbolicamente marcante, como o primeiro cardeal da Amazônia.
Brandes, nomeado para chefiar Aparecida em 2016, é uma exceção no grupo porque não chegou a integrar o colégio do cardeais.
Mas seu antecessor no cargo, o hoje arcebispo emérito de Aparecida Raymundo Damasceno Assis, foi feito cardeal quando estava à frente da circunscrição — o que dá dimensão da visibilidade desse cargo para a cúpula do Vaticano.
A socióloga Tabata Tesser, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião e doutoranda na Universidade de São Paulo, coloca esses quatro nomes em espectros ideológicos diferentes dentro da Igreja.
Ela define Scherer como um religioso de centro, moderado, alguém que “representa uma Igreja de estabilidade e governança, com forte densidade teológica e cuidado institucional”. “Alinha-se formalmente ao magistério social recente, mas sem assumir riscos pastorais mais disruptivos”, diz ela.
Tempesta, por sua vez, seria um nome conservador, da direita eclesial. “Fortaleceu uma Igreja de visibilidade, ordem e conciliação com o poder, evitando confrontos diretos com o conservadorismo religioso e político”, pontua.
“Na prática, abriu espaço para leituras mais fundamentalistas da fé, especialmente em contextos eleitorais.”
Brandes seria um nome da “centro-esquerda eclesial”, alguém profundamente ligado ao trabalho pastoral, “com coragem discursiva em temas sociais”.
Por fim, Steiner, de perfil “progressista pastoral” seria a figura mais alinhada “à gramática eclesial que o papa deseja aprofundar”, o que daria pistas sobre quem podem ser os sucessores nos postos que serão abertos.
“Expressa uma Igreja desclericalizada, amazônica, sinodal e encarnada nas realidades dos pobres e dos povos originários. É o nome que mais rompe com o episcopalismo clássico”, explica Tesser.
“São quatro bispos de formações distintas e, por conta disso, com linhas pastorais que se ajustam diante do povo ao qual eles foram designados”, comenta o teólogo Raylson Araujo, pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Na sua análise, por exemplo, Scherer é aquele com “formação mais sólida, mais firme”, de perfil canonista. Tempesta, o homem “da espiritualidade, da contemplação”.
Leonardo Ulrich Steiner, que lidera a arquidiocese de Manaus desde 2019, completou 75 anos em novembro do ano passado
Getty Images
Desafios diferentes
A transição nos comandos dessas arquidioceses é tema que vem sendo discutido pelo papa.
Para chegar aos nomes ideais, o pontífice ouve religiosos de sua confiança na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e, claro, as opiniões do núncio apostólico no Brasil, que é o representante diplomático da Santa Sé no país.
Desde 2020 o posto é ocupado pelo arcebispo italiano Giambattista Diquattro.
Baseado em Brasília, ele tem boa interlocução com os principais nomes do catolicismo brasileiro e uma visão abrangente dos desafios que a Igreja Católica tem no país.
Para especialistas, Leão 14 está diante de dois caminhos. Por um lado, pode optar pela continuidade de perfis, entendendo que, cada um a seu nome, Scherer, Tempesta, Steiner e Brandes conseguiram se impor à frente dos desafios de suas comunidades e, ao mesmo tempo, foram leais às determinações vindas do Vaticano.
A opção seria Leão aproveitar a oportunidade e colocar nos quatro postos religiosos que sejam completamente afinados com a maneira como ele quer reger a Igreja.
Pela lógica, pessoas muito mais ao estilo Steiner do que ao estilo Scherer.
Mas isso não é tão simples. Se comungam de semelhante importância, essas quatro localidades têm desafios muito diferentes. O que pode exigir perfis muito diferentes de gestão.
Araujo explica lembrando que os desafios de gerir igrejas fortemente urbanas, como São Paulo e Rio, é muito diferente de comandar uma vasta área com comunidades distantes, isoladas, e todo o desafio ambiental da Amazônia.
De acordo com dados da CNBB, a Arquidiocese de São Paulo, a maior do país, atende a cerca de 5 milhões de católicos. A do Rio, segunda maior, 3,5 milhões.
Já Aparecida carrega a especificidade de receber diariamente um manancial de peregrinos de todas as partes do país. Em 2025, o santuário de lá recebeu cerca de 10,5 milhões de fiéis.
A marca de Leão
Por outro lado, Leão está há menos de um ano no trono. E, se demonstra uma continuidade ao papado de Francisco, é verdade que tem um perfil mais discreto, cuidadoso e, por vezes, parece mais conservador.
Nesse sentido, os nomes que ele indicar para comandar São Paulo, Rio, Manaus e Aparecida, mais do que serem o estilo que ele quer imprimir ao catolicismo, podem demonstrar de forma mais clara que estilo é esse.
Para Moraes, as escolhas de Leão vão revelar “se ele quer preservar o legado de Francisco e consolidar isso” ou se ele quer “avançar um pouco mais”. “Até agora, Leão segue na esteira de seu antecessor. Aos poucos, deve deixar sua marca”, acrescenta.

Fonte: Matéria original

Please follow and like us:

Quarta-feira de Cinzas: o que a quaresma representa e por que há abstinência de carne