Um estudo conduzido no Brasil revelou que os primeiros vestígios de vida no fundo marinho, preservados há mais de 540 milhões de anos, eram aglomerados de bactérias e macroalgas filamentosas, e não organismos complexos. A pesquisa, publicada pela Elsevier, contou com a participação de pesquisadores da Unesp e da Universidade de Harvard, que empregaram tecnologias avançadas para detectar vestígios de DNA extremamente difíceis de preservar. Os fósseis analisados pertencem à Formação Tamengo, localizada no Grupo Corumbá, uma unidade sedimentar no sudoeste de Mato Grosso do Sul, reconhecida como a concentração dos fósseis mais antigos do mundo. Até então, a identificação dos primeiros sinais de vida na Terra se baseava na presença de meiofauna – pequenos invertebrados que habitavam sedimentos – e nas biotubulações que esses organismos deixavam. As análises morfológicas e geocronológicas realizadas pelos cientistas mostraram que esses vestígios eram, na realidade, estruturas filamentosas semelhantes a fungos. Características biológicas encontradas nos sedimentos, como divisão de parede celular e restos de matéria orgânica, sustentam a nova interpretação. A investigação também detectou um consórcio microbiano composto por pelo menos três espécies distintas: algas bentônicas, tanto vermelhas quanto verdes, e grandes bactérias, incluindo cianobactérias e bactérias oxidantes de enxofre. A descoberta indica que organismos filamentosos já colonizavam o fundo do mar em ambientes precoces, formando comunidades complexas muito antes do surgimento de formas de vida mais avançadas. O uso de técnicas de ponta para recuperar DNA fossilizado abre novas possibilidades para a compreensão da evolução precoce da vida. Contudo, a pesquisa não esclarece como esses consórcios se organizaram nem quais foram os processos metabólicos que permitiram sua sobrevivência em condições tão antigas. Em síntese, os fósseis da Formação Tamengo desafiam a visão tradicional sobre os primeiros ecossistemas marinhos, sugerindo que a vida filamental desempenhou um papel fundamental na história evolutiva da Terra. Ainda permanecem dúvidas sobre a dinâmica desses primeiros consórcios e sobre os mecanismos que sustentaram sua existência.
Redação Jornal Voz do Litoral
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