EDITORIAL — ACORDA, BRASIL

ACORDA, BRASIL.

Uma fotografia.

Aparentemente, apenas uma fotografia.

Ministros do Supremo Tribunal Federal sorrindo, conversando, descontraídos nos bastidores de uma sessão.

Mas a pergunta que essa imagem provocou no Brasil é muito maior:

Do que eles estão rindo?

Enquanto brasileiros acompanham, perplexos, uma sucessão de denúncias, suspeitas e disputas envolvendo as mais altas autoridades da República, a imagem de ministros sorrindo ganhou as redes sociais e provocou indignação.

E aqui é preciso fazer uma distinção.

Fotografia não é prova de crime.

Suspeita não é condenação.

E acusação precisa ser investigada, com direito à defesa e ao devido processo legal.

Mas democracia também significa fazer perguntas.

E algumas perguntas são inevitáveis.

Quem fiscaliza quem fiscaliza o Brasil?

Quem controla os ministros da mais alta Corte de Justiça?

Quem investiga?

Quem julga?

E, principalmente:

quem julga os próprios julgadores?

O país acompanha o caso Master, as suspeitas que envolvem autoridades e os questionamentos levantados a partir de informações da Polícia Federal.

O ministro André Mendonça trouxe ao debate informações que aumentaram a pressão política sobre o Supremo.

O presidente da Corte, Edson Fachin, falou em serenidade e firmeza.

Mas, para milhões de brasileiros, existe uma palavra que parece cada vez mais distante:

TRANSPARÊNCIA.

Porque quando instituições tão poderosas são questionadas, não basta dizer que tudo está dentro da normalidade.

É preciso explicar.

É preciso mostrar.

É preciso responder.

E existe outro ponto que incomoda.

Os pedidos de impeachment contra ministros do Supremo que permanecem no Congresso.

Se são infundados, que sejam analisados e arquivados.

Se possuem fundamento, que sejam investigados.

O que não pode acontecer é o silêncio transformar o Congresso em uma espécie de sala de espera permanente.

Porque aí nasce uma sensação extremamente perigosa:

a sensação de que existem brasileiros comuns e brasileiros intocáveis.

E isso destrói a confiança nas instituições.

O cidadão comum sabe muito bem o que acontece quando erra.

Paga multa.

Responde processo.

Pode ser preso.

Pode perder patrimônio.

Pode perder anos da própria vida.

Mas quando uma autoridade poderosa é acusada de alguma irregularidade, o brasileiro quer saber:

as mesmas regras valem para todos?

Essa é a questão.

Não é ser contra o Supremo.

Não é ser a favor do Supremo.

É ser a favor da Justiça.

Porque defender a democracia não significa proteger autoridades de questionamentos.

Significa justamente o contrário.

Quanto maior o poder, maior precisa ser a fiscalização.

E existe uma expressão muito brasileira para aquilo que o cidadão começa a enxergar quando vê escândalos, denúncias e suspeitas sendo empurrados para debaixo do tapete:

passar pano.

E o Brasil não pode aceitar uma Justiça onde a impunidade seja seletiva.

Não pode aceitar uma República onde algumas pessoas parecem viver sob uma regra e outras sob outra.

Porque enquanto famílias brasileiras enterram seus mortos vítimas da violência, enquanto inocentes podem passar anos esperando uma decisão judicial, enquanto cidadãos lutam diariamente para sobreviver…

qualquer sinal de deboche vindo de quem deveria representar a Justiça machuca.

E machuca muito.

Não estamos dizendo que um sorriso seja prova de culpa.

Estamos dizendo que, neste momento, a sociedade exige respeito, explicações e transparência.

Porque uma Corte de Justiça não pode parecer indiferente à indignação de quem está do lado de fora.

E quando a população começa a acreditar que a Justiça protege os poderosos…

a própria Justiça começa a perder sua autoridade moral.

Por isso, fica a pergunta:

Do que eles estão rindo?

Talvez seja apenas uma conversa entre colegas.

Talvez não signifique absolutamente nada.

Mas, diante de tantas controvérsias, uma coisa é certa:

o brasileiro está olhando.

E está perguntando.

Está cobrando.

Está cansado.

E talvez tenha chegado a hora de repetir uma frase que não deveria jamais ser necessária em uma democracia:

ACORDA, BRASIL.

Ninguém está acima da lei.

Nem o cidadão.

Nem o empresário.

Nem o político.

E muito menos quem tem o poder de interpretar a própria lei.

Porque Justiça que não aceita ser questionada deixa de transmitir confiança.

E uma democracia sem confiança…

fica perigosamente perto do abismo.

Redação

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